sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

A Linha dos Semirombas e dos Sakaángás na Umbanda



Esse artigo visa explanar aspectos importantes de uma corrente/irmandade astral que participou ativamente na formação da Umbanda e que hoje, apesar de desconhecida por muitos terreiros e praticantes da religião, militam em favor dos umbandistas buscando auxiliar e dar a devida sustentação aos trabalhos de caridade.

Para entender a importância da corrente astral de Semiromba na Umbanda é necessário voltar aos primórdios da religião, no seu processo de formação. 

Fato é - por mais que existam objeções por parte de algumas vertentes - que a Umbanda foi anunciada no dia 15 de Novembro de 1908, pelo médium Zélio Fernandino de Moraes através da autoridade do Caboclo das Sete Encruzilhadas. Espírito esse que fora em sua ultima encarnação Frei Gabriel Malagrida, jesuíta que participou do processo de catequização indígena no Brasil e que foi queimado na Santa Inquisição, devido suas afrontas ao temido Marquês de Pombal. 
Quadro da representação do Índio Caboclo das 7 Encruzilhadas e atrás do Frei Gabriel Malagrida
O fato de um espírito cristão ter sido o fundador da Umbanda é uma chave importantíssima para que se entenda a ancestralidade, a tradição e os objetivos umbandistas, pois remete a aspectos puramente brasileiros que refutam a hipótese de uma origem Africana para a religião Umbanda como conhecida hoje. 

A fundamentação cristã da Umbanda está pautada, não somente no fato de ter sido fundada por um Frei, mas também fatores históricos, informações trazidas pela espiritualidade (através do Caboclo das Sete Encruzilhadas) e por relatos de pessoas que participaram da construção da religião.

Áudios do Caboclo das Sete Encruzilhadas gravados pela senhora Lilia Ribeiro e sinais trazidos pela própria espiritualidade revelam que Santo Agostinho (um Semiromba) fez parte da formação e organização do movimento umbandista no astral, como se pode perceber nesse trecho da mensagem do Caboclo, na Tenda Nossa Senhora da Piedade em 1971:

...”Na federação Espírita do Estado do Rio, presidida por José de Souza, conhecido por Zeca, rodeada por gente velha, homens de cabelos grisalhos, um enviado de Santo Agostinho me chamou (Zélio de Morais) para sentar à sua cabeceira. Havia uma ordem; ele fora jesuíta até aquele momento, chamava-se GabrielMalagrida (Caboclo das Sete Encruzilhadas), e, naquele instante iria anunciar a Lei de Umbanda, onde negros e caboclos pudessem se manifestar, porque ele não estava de acordo com a federação, que não recebia negros, nem caboclos. Pois, se o que existia no Brasil eram caboclos, eram nativos, se quem veio explorar o Brasil trouxe para trabalhar e engrandecer esse país, os negros da costa da África, como uma Federação Espírita não recebia caboclos e negros?” (Trecho da mensagem do Sr. Caboclo das Sete Encruzilhadas gravada em1971, na Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, pela senhora Lilia Ribeiro, diretora da Tenda de Umbanda Luz,Esperança, Fraternidade – RJ).

Outros pontos sustentam a hipótese da liderança dos Semirombas na formação da Umbanda através da figura de Santo Agostinho, como o famoso ponto riscado do Caboclo das Sete Encruzilhadas, no qual apresenta um coração sendo perfurado por uma flecha, símbolo esse considerado Agostiniano devido ao santo ser retratado muitas vezes durante a Idade Média com o coração e flecha nas mãos simbolizando o amor divino. A flecha varando o coração de cima para baixo representa o espírito de Deus entrando nos corações humanos. 


Nesta famosa pintura mediúnica do Caboclo das Sete Encruzilhadas feita pelo médium Jurandy no ano de 1949, percebe-se claramente o símbolo Agostianiano no braço direito do espírito.

Nesta imagem do congá da Tenda Nossa Senhora da Piedade reparamos também o símbolo agostiniano ao alto do altar.

Na imagem vemos o ponto riscado do Caboclo das Sete Encruzilhadas na TENSP em 1985.
 

Na imagem vemos Santo Agostinho com o coração flechado nas mãos. 

Todos esses fatores vão de encontro à presença dos Santos Católicos na Umbanda desde seus primórdios e que permaneceram nela em suas primeiras décadas militando na Linha de Semiromba e Chefiando as Sete Linhas até que o conceito de Orixá foi inserido posteriormente. 

Com o passar dos anos e a inserção de conceitos do Candomblé e da Macumba Carioca na Umbanda, a Linha de Semiromba foi ficando de lado, fazendo com que quase fosse totalmente recolhida, entretanto, graças aos antigos praticantes de Umbanda e novos praticantes da velha Umbanda esse conhecimento vem sendo novamente disseminado na esperança de que esses trabalhadores do astral continuem nos auxiliando em nossos trabalhos religiosos e que sejam devidamente valorizados por seu trabalho na organização do movimento umbandista no astral.

Mas afinal quem são os Semirombas e os Sakaángas?

Agora, devidamente contextualizados e inseridos na formação da Umbanda, podemos dissertar sobre quem são esses espíritos e onde se encaixam em nosso sistema Umbandista de trabalho. 

Os Semirombas e Sakaángas estão inseridos na primeira Linha de Umbanda, a linha de Oxalá. Fazem parte da sétima legião dessa linha comandada por São Francisco de Assis, legião essa que engloba espíritos que em vida foram muito ligados a fé, a religiosidade, ao conceito de purificação espiritual e que levaram uma vida buscando a depuração de vícios e vontades terrenas. 

A palavra Semiromba significa homem puro, e é empregada em um sentido geral para denominar os componentes de uma corrente astral de Padres, Frades, Freiras e Monges que militam nas religiões auxiliando a todos com sua chamada “magia cristã”. São espíritos muito humildes, que atuam através da oração e do poder mental para ajudar a todos que participam de seus trabalhos. Essa linha de trabalho tem duas particularidades interessantes, uma delas é que dificilmente trabalham incorporados, o que hoje na Umbanda é quase uma heresia devido ao hábito de se utilizar incorporação de espíritos como muleta para todo trabalho espiritual, e a segunda é que só se manifestam quando existe um grupo de pessoas em congregação e oração, ou seja, nenhum sacerdote Umbandista pode dizer que invoca a linha de Semiromba sozinho.

Desta linha se manifestam espíritos comandados por Santo Antônio, São Benedito, Santa Clara, Santa Bárbara, São José de Cupertino, Santo Agostinho dentre tantos outros vários espíritos que são considerados Semirombas, homens puros.

Como dito anteriormente esses espíritos trabalham através da “Magia Cristã” que engloba gestos e orações de poder que visam curar e transformar profundamente a alma dos necessitados, além de limpar a aura de magias negativas, mandingas, mau-olhado, quebrantos e feitiçarias. É uma linha que tem a especialidade no campo dos “Exorcismos” (desobsessão) e também na libertação de obsessões complexas e difíceis que já pendurem há anos. Mas seu principal objetivo (e talvez o motivo de ter sido esquecida durante anos) é trabalhar na reforma íntima dos consulentes e médiuns, buscando fazer com que as pessoas enxerguem seus defeitos e qualidades e que busquem purificar a alma a fim de entrar em comunhão com Deus, algo que hoje também é muito esquecido na Umbanda, cheia de suas mandingas e trabalhos para resolver os problemas de maneira rápida. 

Já os Sakaángas são espíritos de Benzedeiros, Benzedeiras, Rezadores, Raizeiros, Curadores e Parteiras, que trabalham utilizando de seus benzimentos e rezas para retirar o mal, as magias negras, as maledicências, a inveja e outras energias negativas da aura das pessoas. São espíritos poderosos na arte do descarrego, habilidade essa que fica implícita em seu nome, Saka pode ser traduzido como sacudir ou agitar e Angá pode significar espírito. Buscam também auxiliar na orientação de espíritos obsessores, kiumbas, eguns e espíritos sofredores.

Os espíritos que trabalham nessa linha são comandados por rezadores ilustres como Pai João de Camargo, Monge João Maria de Agostinho, Nhá Chica, Dona Geraldina, Tia Eva e o saudoso Mestre Irineu fundador do Santo Daime. 

Em apenas um artigo é muito difícil explanar todo universo que rodeia essa corrente espiritual dos Semirombas e Sakaángas, pois não são propriedade da Umbanda tampouco se limitam aos conceitos umbandistas. É uma Irmandade Espiritual envolta de muitos mistérios e tradições muito mais antigas e que carregam em si toda uma ancestralidade cristã popular brasileira.

Mas se mostra fato que fizeram parte da liderança astral que fundamentou e organizou a Umbanda e hoje devido a vários fatores políticos, doutrinários e interesses pessoais dentro da religião foram perdendo seu espaço e sua valorização. Com o devido conhecimento sobre essa linha, o umbandista pode desempenhar o papel de expandir o nome dessa corrente a fim de não perder as nossas tradições religiosas.

A todos os Umbandistas que quiserem se aprofundar no conhecimento dessa irmandade astral e que busquem saber como realizar os trabalhos com esses espíritos em seus respectivos templos, searas e terreiros, indicamos a leitura e estudo pormenorizado do livro “Ritual do Rosário das Santas Almas Benditas” que explica e trás toda uma fundamentação histórica, litúrgica, doutrinaria e de culto. Esse livro foi escrito por Pai Juruá dirigente do Templo da Estrela Azul em São Caetano do Sul, ao qual deixo meus sinceros agradecimentos por ter compartilhado e disponibilizado todo esse conhecimento que tanto vem a somar para a religião. Deixo nas referências do artigo o link para download do livro em PDF. 

Concluindo, peço a todos os irmãos umbandistas que sempre tratem com o devido respeito e admiração essa linha, mesmo que não trabalhem em seus respectivos templos, para que possamos deixar viva as nossas raízes religiosas e impedir que pessoas má intencionadas, dentro e fora da religião, criem fundamentos deturpados que confundam e criem dissidências desnecessárias dentro do movimento umbandista.

Salve a Semiromba! Salve São Francisco de Assis! Salve Santo Agostinho! Salve Gabriel Malagrida, O Caboclo das Sete Encruzilhadas!

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Artigo realizado pelo médium Lucas Martins dos Santos, da Tenda de Umbanda Filhos da Vovó Rita.
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Referências: 








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